segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Travessia Lapinha Tabuleiro



Travessia Lapinha – Tabuleiro, Minas Gerais




Vista da represa ao lado da Lapinha da Serra

por Emílio Evo M. C. Urbano


História e Geografia
A região entre os distritos de Lapinha da Serra e Tabuleiro é um daqueles locais que marcam a mente de qualquer pessoa, seja pela sua beleza, suas histórias ou sua cultura local. Encravados nas bordas da Serra do Espinhaço, os dois distritos se destacam pela beleza e exuberância de suas paisagens. Os residentes desta região também são um outro destaque. A simplicidade, sabedoria e a boa forma com a qual recebem as visitas são algumas das qualidades que nos mostram o que realmente é “ser mineiro”.
Saída da Lapinha em direção a Tabuleiro

A origem destes dois vilarejos remontam a séculos antes da chegada dos primeiros colonizadores europeus. Em ambos locais é possível encontrar vestígios dos povos antigos que já habitaram a região como pinturas rupestres. A colonização da região se iniciou com a chegada dos bandeirantes no século XVIII a procura de metais nobres e pedras preciosas. Famosos exploradores também passaram por essas bandas, como o alemão Langsdorff no ano de 1825, com direito a até citações no seu diário de viagem.
Trilha em campo de altitude

Assim como outras ramificações da Estrada Real, esta travessia provavelmente foi criada pelo fluxo de tropeiros e romeiros que desejavam cruzar a Serra do Espinhaço. Esse espigão constituía uma barreira física que dividia duas regiões denominadas durante o período colonial de Mato Dentro e de Campos Gerais. Esses nomes foram atribuídos devido a sua vegetação predominante, sendo a primeira caracterizada pela Mata Atlântica e a segunda pelos campos de Cerrado. Essa transição de biomas possibilita a interação de espécies de diferentes ecossistemas, conferindo a região uma grande relevância biológica.

Amanhecer na região de Tabuleiro
Outro fato interessante é que nesta travessia é possível cruzar o divisor de águas entre a bacia do Rio São Francisco e bacia do Rio Doce. Ou seja, as águas que correm em direção oeste deságuam na divisa dos estados de Sergipe e Alagoas e as águas que correm para leste deságuam no norte do Espírito Santo (cerca de 2.000 km de uma foz a outra).
Cruzando a serra que divide as bacias do Rio São Francisco e Rio Doce.
A paisagem da região é dominada por serras alinhadas norte e sul, com declives mais suaves para leste e intercaladas por zonas de topografia mais suave. Observa-se uma forte influência geológica sobre a vegetação: nas áreas planas formadas por depósitos de sedimentos recentes ou rochas argilosas predominam os campos de altitude, constituído por uma vegetação rasteira, homogênia e contínua. Nas áreas dominadas por afloramentos quartzitícos e de altitude mais elevada ocorrem os campos rupestres caracterizados por canelas de ema, sempre-vivas e bromélias. Ainda durante a travessia é possível avistar o imponente Pico do Breu que domina a paisagem com seus 1687 metros de altitude.
Vista do Pico do Breu com o tempo armando chuva.
A Travessia
A travessia pode ser feita em ambos os sentidos e os trajetos também poder ser diversos dependendo do gosto do freguês, mas o percurso mais popular tem cerca de 27 km. Na internet há vários roteiros com informações detalhadas como localização de encruzilhadas, perfis de altimetria e etc.
Ao longo da travessia, a cada 9 km aproximadamente, é possível encontrar uma pequena propriedade rural onde se pode acampar, encontrar uma boa refeição e um chuveiro por cerca de 25 contos, nada mal para que está no meio do mato!  Por isso não é necessário levar muita comida na mochila se a opção for pernoitar nestes sítios.
Mapa com caminhamento da travessia levantado com GPS
As pessoas que oferecem todo esse auxílio, Seu Zé, Dona Maria e Dona Ana Benta, são um verdadeiro alento para aqueles que por lá chegam, muitas vezes exaustos. Apesar de toda dificuldade para se conseguir bens de consumo (leia-se alimentos, eletrodomésticos, etc), devido ao isolamento e falta de estrutura da região, eles recebem estranhos visitantes como velhos amigos sem poupar esforços. 
Partida da casa do Seu José e Dona Maria
Próximo ao Pico do Breu, a trilha cruza com a Prainha, margem de um riacho que impressiona pelo contraste da cor dos seixos de quartzito branquíssimos de sua pequena praia e a cor de “coca cola” do rio. Muitos rios da Serra do Espinhaço apresentam essa cor devido a grande quantidade de matéria orgânica vegetal diluída em suas águas.
Cannyon do rio Santo Antônio acima da Cachoeira do Tabuleiro
Outro ponto alto da travessia é a cachoeira do Tabuleiro. Com 273 metros de altura, este acidente geográfico é um verdadeiro monumento da natureza. Para chegar até a sua parte superior, deve-se pegar uma trilha de 4 km a partir da casa do Seu Zé em direção ao sul e depois descer pelo pequeno cannyon formado pelo rio Santo Antônio. Vale a pena pois existem vários poços ótimos para nadar ao longo do rio Santo Antônio e o visual da parte superior da cachoeira é incrível.
Vista do poço da cachoeira do Tabuleiro do topo da queda.
Apesar de predominarem rochas metamórficas como quartzitos e filitos em toda região, ao longo do cannyon do rio Santo Antônio ainda se preservam estruturas  sedimentares. Lá  é possível identificar estratificações cruzadas tabulares de grande porte, características da Formação Galho do Miguel. Além disso, a formação das quedas d’água ao longo do curso do rio é controlada pelos seqüências das estratificações cruzadas tabulares. No intervalo entre essas seqüências, a água corre em superfícies planas que são as camadas basais destes conjuntos de estratos. Para quem não estiver familiarizado com estes termos geológicos veja a nota explicativa ao final.
Estratificação cruzada tabular.
O percurso pode ser realizado com o auxílio de mapa e GPS desde que a pessoa possua experiência em navegação no campo. Caso contrário é possível contratar o serviço de guia nos distritos que pode incluir burros para transportar materiais. A trilha não é difícil, mas em alguns locais pode se tornar confusa devido a algumas encruzilhadas. Por isso tente levar os dados da trilha já carregados na memória do GPS para evitar problemas no percurso. 
Sequencia de estratificações.
Tanto a Lapinha da Serra quanto Tabuleiro dispõe de boas opções de pousadas, campings ou casas para alugar. Também existem algumas empresas locais que organizam a travessia, é só procurar no Facebook por Tabuleiro Eco Hostel e Bambu Aventura. 

Lapinha da Serra localiza-se a 133 km de Belo Horizonte; é possível pegar um ônibus de Belo Horizonte até Santana de Riacho, município do qual a Lapinha faz parte. Depois é preciso pegar uma carona pois ainda restam 10 km de estrada de terra. Algumas pessoas locais oferecem transporte por cerca de 50 reais. Para retornar de Tabuleiro até a capital mineira é necessário percorrer uma estrada de terra de 27 km até Conceição do Mato Dentro e depois outros 150 km até BH.

O período do ano onde as caminhadas são mais frequentes para se realizar a travessia é de abril a setembro, quando o clima se torna seco e frio e as temperaturas podem chegar até os 5˚C nas noites mais frias. De outubro a março as chuvas são freqüentes e as cachoeiras ficam melhores para nadar.

É sempre bom ter os olhos abertos na trilha....
Lembre-se de recolher seu lixo, ter cuidado em relação a sua segurança e respeitar os animais silvestres. Não é difícil se perder nas trilhas, encontrar animais peçonhentos, sofrer contusões no caminho ou ser surpreendido por uma tromba d’água nos meses chuvosos. É melhor não ter que contar com qualquer tipo de resgate ou socorro, pois será necessário horas para este chegar.

Para ler antes, durante ou depois de atravessar:
O CAMINHO DOS CURRAIS DO RIO DAS VELHAS: A ESTRADA REAL DO SERTÃO/ Eugênio Marcos Andrade Goulart, Editora Coopmed, 2009.

Nota explicativa geológica: 
As rochas metamórficas características da região do Espinhaço se formaram durante a colisão de duas placas tectônicas a milhões de anos atrás. Este fenômeno é semelhante ao processo responsável pela formação das grandes cadeias de montanhas de hoje como os Himalaias, Andes e Montanhas Rochosas. Porém antes de acontecer essa colisão a região era bem diferente de uma cadeia de montanhas, tendo variado entre vários tipos de ambientes de sedimentação como zona de costa marinha, fundo oceânico e deserto. Essas variações ambientais ocorrem graças a  movimentação das placas tectônicas, mudança climáticas e variações do nível do mar ao longo de milhões de anos.

Os ambientes onde ocorreram a sedimentação que gerou estas rochas deixam feições e estruturas que permitem sua identificação, como ao longo do rio Santo Antônio. Neste local as rochas apresentam estruturas como estratificações cruzadas tabulares (oitava foto) e seqüências de estratos (nona foto) que são características de ambientes desérticos. 
Cachoeira do Tabuleiro ao fundo. Água de beber camará.

3 comentários:

  1. Ótimo blog sobre uma bela aventura! Muito bem ilustrado com fotos ao mesmo tempo artísticas e documentais. Parabéns e fico no aguardo de novos posts.

    Abraços,

    Pedro Trindade
    Fotógrafo e Editor do Ecoclics
    www.ecoclics.com.br

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  2. Grande Emilio, mandou muito bem nos relatos, da vontande de montar o mochilão e se jogar agora mesmo!!..Belas fotos, e os teus comentários são bem esclarecedores..Parabéns pelo trabalho!
    Até breve!Bj!

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  3. Show de bola mandrião! Em junho tô indo lá!

    Abrax,

    Xú-Pão

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