Travessia Lapinha –
Tabuleiro, Minas Gerais
História e Geografia
A região entre os
distritos de Lapinha da Serra e Tabuleiro é um daqueles locais que marcam a
mente de qualquer pessoa, seja pela sua beleza, suas histórias ou sua cultura
local. Encravados nas bordas da Serra do Espinhaço, os dois distritos se
destacam pela beleza e exuberância de suas paisagens. Os residentes desta
região também são um outro destaque. A simplicidade, sabedoria e a boa forma
com a qual recebem as visitas são algumas das qualidades que nos mostram o que
realmente é “ser mineiro”.
Saída da Lapinha em direção a Tabuleiro
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A origem destes dois
vilarejos remontam a séculos antes da chegada dos primeiros colonizadores
europeus. Em ambos locais é possível encontrar vestígios dos povos antigos que
já habitaram a região como pinturas rupestres. A colonização da região se
iniciou com a chegada dos bandeirantes no século XVIII a procura de metais
nobres e pedras preciosas. Famosos exploradores também passaram por essas
bandas, como o alemão Langsdorff no ano de 1825, com direito a até citações no
seu diário de viagem.
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| Trilha em campo de altitude |
Assim como outras
ramificações da Estrada Real, esta travessia provavelmente foi criada pelo fluxo
de tropeiros e romeiros que desejavam cruzar a Serra do Espinhaço. Esse espigão
constituía uma barreira física que dividia duas regiões denominadas durante o
período colonial de Mato Dentro e de Campos Gerais. Esses nomes foram
atribuídos devido a sua vegetação predominante, sendo a primeira caracterizada
pela Mata Atlântica e a segunda pelos campos de Cerrado. Essa transição de
biomas possibilita a interação de espécies de diferentes ecossistemas,
conferindo a região uma grande relevância biológica.
Amanhecer na região de Tabuleiro
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Outro fato
interessante é que nesta travessia é possível cruzar o divisor de águas entre a
bacia do Rio São Francisco e bacia do Rio Doce. Ou seja, as águas que correm em
direção oeste deságuam na divisa dos estados de Sergipe e Alagoas e as águas
que correm para leste deságuam no norte do Espírito Santo (cerca de 2.000 km de
uma foz a outra).
Cruzando a serra que divide as bacias do Rio São Francisco e Rio Doce.
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A paisagem da região
é dominada por serras alinhadas norte e sul, com declives mais suaves para leste
e intercaladas por zonas de topografia mais suave. Observa-se uma forte
influência geológica sobre a vegetação: nas áreas planas formadas por depósitos
de sedimentos recentes ou rochas argilosas predominam os campos de altitude,
constituído por uma vegetação rasteira, homogênia e contínua. Nas áreas
dominadas por afloramentos quartzitícos e de altitude mais elevada ocorrem os
campos rupestres caracterizados por canelas de ema, sempre-vivas e bromélias.
Ainda durante a travessia é possível avistar o imponente Pico do Breu que
domina a paisagem com seus 1687 metros de altitude.
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Vista do Pico do Breu com o tempo armando chuva.
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A Travessia
A travessia pode ser feita em
ambos os sentidos e os trajetos também poder ser diversos dependendo do gosto
do freguês, mas o percurso mais popular tem cerca de 27 km. Na internet há
vários roteiros com informações detalhadas como localização de encruzilhadas,
perfis de altimetria e etc.
Ao longo da travessia, a cada 9 km
aproximadamente, é possível encontrar uma pequena propriedade rural onde se
pode acampar, encontrar uma boa refeição e um chuveiro por cerca de 25 contos,
nada mal para que está no meio do mato! Por isso não é necessário levar
muita comida na mochila se a opção for pernoitar nestes sítios.
Mapa com caminhamento da travessia levantado com GPS
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As pessoas que oferecem todo esse
auxílio, Seu Zé, Dona Maria e Dona Ana Benta, são um verdadeiro alento para
aqueles que por lá chegam, muitas vezes exaustos. Apesar de toda dificuldade
para se conseguir bens de consumo (leia-se alimentos, eletrodomésticos, etc),
devido ao isolamento e falta de estrutura da região, eles recebem estranhos
visitantes como velhos amigos sem poupar esforços.
Partida da casa do Seu José e Dona Maria
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Próximo ao Pico do
Breu, a trilha cruza com a Prainha, margem de um riacho que impressiona pelo
contraste da cor dos seixos de quartzito branquíssimos de sua pequena praia e a
cor de “coca cola” do rio. Muitos rios da Serra do Espinhaço apresentam essa
cor devido a grande quantidade de matéria orgânica vegetal diluída em suas
águas.
Cannyon do rio Santo Antônio acima da Cachoeira do Tabuleiro
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Outro ponto alto da travessia é a
cachoeira do Tabuleiro. Com 273 metros de altura, este acidente geográfico é um
verdadeiro monumento da natureza. Para chegar até a sua parte superior, deve-se
pegar uma trilha de 4 km a partir da casa do Seu Zé em direção ao sul e depois
descer pelo pequeno cannyon formado pelo rio Santo Antônio. Vale a pena pois
existem vários poços ótimos para nadar ao longo do rio Santo Antônio e o visual
da parte superior da cachoeira é incrível.
Vista do poço da cachoeira do Tabuleiro do topo da queda.
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Apesar de predominarem rochas
metamórficas como quartzitos e filitos em toda região, ao longo do cannyon do
rio Santo Antônio ainda se preservam estruturas sedimentares. Lá
é possível identificar estratificações cruzadas tabulares de grande
porte, características da Formação Galho do Miguel. Além disso, a
formação das quedas d’água ao longo do curso do rio é controlada pelos
seqüências das estratificações cruzadas tabulares. No intervalo
entre essas seqüências, a água corre em superfícies planas que são as camadas
basais destes conjuntos de estratos. Para quem não estiver familiarizado com
estes termos geológicos veja a nota explicativa ao final.
Estratificação cruzada tabular.
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Tanto a Lapinha da
Serra quanto Tabuleiro dispõe de boas opções de pousadas, campings ou casas
para alugar. Também existem algumas empresas locais que organizam a travessia,
é só procurar no Facebook por Tabuleiro Eco Hostel e Bambu Aventura.
Lapinha da Serra
localiza-se a 133 km de Belo Horizonte; é possível pegar um ônibus de Belo
Horizonte até Santana de Riacho, município do qual a Lapinha faz parte. Depois
é preciso pegar uma carona pois ainda restam 10 km de estrada de terra. Algumas
pessoas locais oferecem transporte por cerca de 50 reais. Para retornar de
Tabuleiro até a capital mineira é necessário percorrer uma estrada de terra de
27 km até Conceição do Mato Dentro e depois outros 150 km até BH.
O período do ano
onde as caminhadas são mais frequentes para se realizar a travessia é de abril
a setembro, quando o clima se torna seco e frio e as temperaturas podem chegar
até os 5˚C nas noites mais frias. De outubro a março as chuvas são freqüentes e
as cachoeiras ficam melhores para nadar.
É sempre bom ter os olhos abertos na trilha....
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Lembre-se de
recolher seu lixo, ter cuidado em relação a sua segurança e respeitar os
animais silvestres. Não é difícil se perder nas trilhas, encontrar animais
peçonhentos, sofrer contusões no caminho ou ser surpreendido por uma tromba
d’água nos meses chuvosos. É melhor não ter que contar com qualquer tipo de
resgate ou socorro, pois será necessário horas para este chegar.
Para ler antes,
durante ou depois de atravessar:
O CAMINHO DOS
CURRAIS DO RIO DAS VELHAS: A ESTRADA REAL DO SERTÃO/ Eugênio Marcos Andrade Goulart, Editora Coopmed,
2009.
Nota explicativa geológica:
As rochas metamórficas
características da região do Espinhaço se formaram durante a colisão de duas
placas tectônicas a milhões de anos atrás. Este fenômeno é semelhante ao
processo responsável pela formação das grandes cadeias de montanhas de hoje
como os Himalaias, Andes e Montanhas Rochosas. Porém antes de acontecer essa
colisão a região era bem diferente de uma cadeia de montanhas, tendo variado
entre vários tipos de ambientes de sedimentação como zona de costa marinha,
fundo oceânico e deserto. Essas variações ambientais ocorrem graças
a movimentação das placas tectônicas, mudança climáticas e variações
do nível do mar ao longo de milhões de anos.
Os ambientes onde ocorreram a
sedimentação que gerou estas rochas deixam feições e estruturas que permitem
sua identificação, como ao longo do rio Santo Antônio. Neste local as rochas
apresentam estruturas como estratificações cruzadas tabulares (oitava foto) e
seqüências de estratos (nona foto) que são características de ambientes
desérticos.
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| Cachoeira do Tabuleiro ao fundo. Água de beber camará. |











